Renove onde você está

Certa vez, Martinho Lutero foi abordado por um homem que entusiasticamente anunciou que tinha se tornado cristão há pouco tempo. Desejando desesperadamente servir ao Senhor, ele perguntou a Lutero: “O que devo fazer agora?”, como se dissesse: devo me tornar um ministro, ou talvez um evangelista itinerante? Lutero respondeu: “Atualmente, qual é sua profissão?”. “Sou um sapateiro”. Para surpresa dele, Lutero respondeu: “Então faça um bom sapato e venda por um preço justo”. Ao nos tornarmos cristãos, não precisamos abandonar o chamado vocacional que já temos. Nem precisamos justificar esse chamado, qualquer que seja, em termos de seu valor “espiritual” ou de utilidade evangelística. Precisamos simplesmente exercitar o que nosso chamado era com novas motivações, alvos e padrões, que glorificam a Deus – e com um compromisso renovado em realizar nosso chamado com excelência maior e objetivos mais altos. Uma das maneiras de refletirmos nosso Criador é sendo criativos exatamente onde estamos, com os talentos e dons que ele nos deu. Como Paulo diz: “Cada um permaneça na vocação em que foi chamado… Irmãos, cada um permaneça diante de Deus naquilo em que foi chamado.” (1 Coríntios 7.20,24). Quando fazemos isso, cumprimos nosso chamado de reformar e embelezar nossos muitos “lugares” para a glória de Deus.

Uma vez, ouvi Os Guinness falar sobre o que o reforma assim exigiria. Ele disse que a razão principal para os cristãos não estarem fazendo maior diferença em nosso mundo não é porque eles não estão onde deveriam estar. Existem, em outras palavras, multidões de artistas, advogados, doutores e empresários que são cristãos. Pelo contrário, a razão principal é que os cristãos não são quem eles deveriam ser justamente onde estão. Externamente, não precisa haver qualquer diferença discernível entre o trabalho de um não-cristão e de um cristão. Muitos notaram que uma abordagem transformacional da cultura não significa que toda atividade humana praticada por um cristão (projetar computadores, consertar carros, vender seguros, ou qualquer outra) deva ser óbvia e externamente diferente das mesmas atividades praticadas por não-cristãos. Ao invés disso, a diferença é encontrada no “motivo, objetivo e padrão”. John Frame escreve: “o cristão procura trocar pneus para a glória de Deus e o não-cristão, não. Mas essa é uma diferença que não pode ser capturada em uma fotografia. Enquanto trocam pneus, um cristão e um não-cristão podem ser bem parecidos”. Cristo não é somente Senhor da igreja; ele também é supremo sobre a família, as artes, as ciências, e a sociedade humana em geral. Nas famosas palavras de Abraham Kuyper, “Não existe sequer um centímetro de nossa existência humana do qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame ‘Meu!’” É por isso que não devemos nos retirar do mundo, mas, pelo contrário, trazer os padrões da Palavra de Deus à toda dimensão da cultura humana. Fazer a diferença por Cristo significa entregar todas as áreas de nossas vidas sob seu senhorio. Devemos viver em devoção apaixonada por ele, em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Enquanto fazemos isso, o poder renovador de Deus é liberado por meio de nós. Portanto, enquanto os cristãos devem se separar de motivações de autoglorificação, de objetivos que ignoram a Deus, e dos padrões inferiores do mundo (nossa separação espiritual), não devemos nos separar de pessoas, lugares e coisas no mundo (uma separação especial). Devemos ser moral e espiritualmente distintos, sem sermos culturalmente segregados.

Isso me lembra da observação de C.S. Lewis, de que os cristãos que mais fizeram pela presente era são aqueles que mais pensaram na futura.

Por Tullian Tchividjian

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